
Por Alex Gonçalves
Opinião de política
Nas últimas décadas, o mapa eleitoral do Brasil desenhou uma fronteira clara. Mas quem olha para o Nordeste e enxerga apenas um "curral eleitoral" comete não apenas um erro matemático, mas uma miopia sociológica profunda. O voto nordestino em Luiz Inácio Lula da Silva deixou de ser uma mera preferência partidária para se tornar um ato de insurgência regional.
Os números não mentem e explicam o pânico da oposição. Em 2022, Lula obteve 69,34% dos votos válidos na região, contra 30,66% de seu adversário. Em estados como o Piauí, a vantagem chegou a acachapantes 76,8%.
Para 2026, o cenário de "resistência" se renova. Mesmo com a oscilação da economia, a aprovação de Lula no Nordeste mantém-se resiliente na casa dos 60%, enquanto no Sul o governo amarga índices de rejeição que invertem essa lógica. O Nordeste não vota apenas com o estômago; vota com o extrato bancário do passado e o medo do retrocesso no futuro.
O Voto como Resposta ao Ódio
O que transformou a urna em "resistência"? A resposta está na xenofobia. Segundo dados da Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos, as denúncias de xenofobia contra nordestinos saltam mais de 800% em períodos eleitorais.
Quando o eleitor de Fortaleza, Recife ou do sertão baiano liga a televisão ou abre o TikTok e ouve que seu voto é "fruto da ignorância" ou que a região é um "fardo para o PIB", a urna deixa de ser uma escolha técnica. Ela vira uma resposta de dignidade. O voto em Lula tornou-se o escudo de uma identidade ferida. O eleitor diz: "Se você nos ataca, nós nos unimos em torno de quem nos deu visibilidade".
Existe um mito elitista de que o nordestino é "comprado" por programas sociais. É o contrário. O eleitor da região é, talvez, o mais pragmático do país. Ele viu o número de universitários saltar de 400 mil para 1,4 milhão em uma década de governos petistas. Ele viu a Transposição do São Francisco sair do papel após um século de promessas.
Enquanto o Sudeste debate pautas de costumes e o Sul foca no agronegócio exportador, o Nordeste resiste para manter o mercado interno pulsando. Para esse eleitor, Lula não é um messias, mas um instrumento de sobrevivência.
Contudo, há um alerta: a resistência pode virar complacência. Se o governo atual não entregar novas obras estruturantes e se perder apenas na retórica da gratidão, a "Muralha Vermelha" pode apresentar rachaduras. O crescimento da oposição em capitais como Maceió e o avanço de lideranças de direita no interior do Ceará mostram que o Nordeste está vigilante.
O Nordeste não deve nada ao Brasil; o Brasil é que ainda não entendeu a lição de cidadania que vem de cima. O voto lulista na região é, acima de tudo, um grito: respeitem quem carrega o destino da República nas mãos.